Cansados dos engarrafamentos, da falta de vagas e dos preços altos dos estacionamentos, alguns paulistanos decidiram abolir o carro como meio de transporte
Parado nos congestionamentos -o recorde chegou a 266 km em maio- ou na disputa inglória por uma vaga para estacionar, o carro virou um trambolho que coloca em xeque a própria sobrevivência da metrópole. Não dá para todo mundo ter um carro hoje, a não ser que acabem com os espaços públicos e transformem a cidade em algo exclusivo para o automóvel, ironiza a urbanista Raquel Rolnik.
As vagas foram extintas para viabilizar a circulação de carros. O consumidor não têm mais onde parar na rua. Além da Augusta, perderam vagas as alamedas Jaú, Itu, Lorena, Campinas, Joaquim Eugênio de Lima e Gabriel Monteiro da Silva, além das ruas Haddock Lobo, Oscar Freire, Augusta e Frei Caneca. No bairro, das 1.902 vagas de zona azul, 636 foram desativadas, e 123, criadas. Há um mês, a febre atingiu outras vias da cidade, em Moema e Pinheiros.
Após a extinção das vagas, os estacionamentos da região elevaram os preços por hora e também as mensalidades. Em geral, a hora subiu R$ 1,00, entre dez serviços consultados pela reportagem. No entanto, só havia vaga para novos mensalistas em apenas um estacionamento, ao custo de R$ 115,00. Há dois meses, o valor era de R$ 100,00.
A lei da oferta e da procura fez alguns estabelecimentos inflacionarem seus serviços. Em um deles, paga-se R$ 220,00 para deixar o carro ao longo do mês na região, R$ 30,00 a mais que em junho.
A política de extinguir vagas de zona azul pode se expandir para outros bairros. A prefeitura sinaliza com ações que favorecem a circulação de carros, em resposta à pressão por melhorias no trânsito. Mas cada remédio tem efeito colateral. O estacionamento é mais um preço que o paulistano paga por usar o carro numa cidade que não comporta mais esse tipo de transporte individual, diz Horácio Figueira, 55, consultor em engenharia de transporte, um dos maiores especialistas brasileiros no assunto.
Enquanto 45% dos paulistanos usam o carro para se locomover, 55% fazem uso dos meios de transportes coletivos. O grupo que se locomove por metrô, ônibus e trem cresceu nos últimos cinco anos - eram 52,3% em 2002. Mas os fatores que determinaram esse fenômeno foram o aumento na renda das classes C e D e programas como o Bilhete Único, que permitiram a inclusão de novos usuários.
A classe média ainda não migrou para o transporte coletivo. Para que isso aconteça, ainda faltam uma política de integração de transportes e mais conforto em ônibus e no metrô, diz Raquel. A rede local de metrô é de apenas 60 km. A de Nova York tem 369 km, e a de Londres, 400 km. São exemplos de metrópoles onde o carro não é a melhor opção.
Assim como os habitantes de metrópoles no exterior, os paulistanos também têm de se conscientizar de que fazem parte do problema e de uma possível solução. As pessoas acham que o problema é causado pelos outros, não por elas. É uma questão de egoísmo e individualismo, afirma Horácio. É preciso saber que, ao comprar um carro, estão comprando também um grande problema.
Abdicar do automóvel em São Paulo é uma decisão corajosa. As opções estão longe do ideal: andar de táxi é caro, os ônibus podem estar lotados e passam em intervalos longos, a estação de metrô não é tão próxima e andar a pé pode ser inseguro em determinados locais e horários. Ainda assim, usar o carro pode ser pior.
Colaboraram: Roberto de Oliveira e Ocimara Balmant
Fonte: Revista da Folha
COMENTÁRIO DO RAFA:
Nesta segunda-feira, dia 22, os paulistanos foram chamados a deixar os veículos na garagem no Dia Mundial Sem Carro, evento que acontece em diferentes pontos do planeta (conforme noticiei hoje cedo, veja a matéria aqui. Para um grupo de moradores, vai ser fácil se engajar para outros difícil e para uns impossível.Cada um tem seus argumentos para continuar possuindo seu próprio carro ou para adquirir um novo. Mas a grande maioria enfrenta um grande nó andando ou parando um automóvel em São Paulo nos dias de hoje. Agora conte você, leitor, em qual situação se encontra e qual o seu motivo em possuir um carro ou não deixá-lo.
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